Paris, Texas

Fevereiro 3, 2009

Definitivamente esse é um dos filmes de minha vida.  Como pude ter esquecido disso…  Talvez porque Asas do Desejo já seja um deles.

Alguma semelhança com o sentimento de Travis seria mera coincidência. Mas existem coincidências?

Depois de Ivens, Pelechian e Tarkovsky. Fellini, Bergman e Truffaut, nova tríade:

Kubrick, Kiarostami e Wenders.

Falando nisso, preciso rever Close-up.

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Convido a todos para o lançamento de “10 centavos”, curta metragem dirigido por mim, com roteiro de Reinofy Duarte e produção da Santo Forte Imagem & Conteúdo.

O lançamento será no dia 24 de julho (terça-feira) , às 20 horas, no Multiplex Iguatemi Salvador. A entrada é franca.

O projeto foi vencedor do Prêmio Braskem Cultura e Arte – 2006.

Mais informações: http://10centavos.multiply.com

Trailer: http://br.youtube.com/watch?v=Ur4eli25h0Y

Conto com a presença de todos.

A dama na água

Setembro 12, 2006

No Cinema 

Lady in the Water, EUA, 2006

Na primeira cena de A dama na água, vemos um dos personagens tentando matar algo que está infernizando uma família, sendo que o espectador não vê o “monstro” causador de tanta agonia. A sua concentração é tamanha que o que deveria ser um pequeno inseto ganha contornos perigosos e complexos. Essa cena sintetiza o que diretor M. Night Shyamalan passa com seu novo filme, que parece simples mas que no fundo traz algumas experiências enriquecedoras, tanto na forma de narrar quanto na trama. Pena que algumas manias cinematográficas terminam ofuscando o brilho dessas qualidades.

Quem aparece “salvando” a família é Cleveland Heep, zelador de um condomínio predial, onde residem moradores variados. Numa noite é descoberta na piscina do condomínio uma “narf” chamada Story, ela é um ser sobrenatural do mundo subaquático que aparece para ajudar um ser humano escolhido, como afirma animação que aparece junto com os créditos iniciais. Com sua chegada, todos que entram em contato com ela acabam se transformando, mas ela não vem sozinha, traz consigo monstros que tentam impedi-la de voltar ao seu mundo.

Após a apresentação dos personagens e do ambiente, a trama começa a se articular justamente depois do protagonista ficar inconsciente e desmaiar, inserindo um caráter de devaneio, de subconsciente, que será pontuado posteriormente. Shyamalan tem uma característica marcante, criar ambientes originais e intimistas, onde mais esconde do que mostra, caminhando com a ajuda da fantasia do espectador. A dama na água é seu filme mais arriscado, no sentido de que é o que ele mais se utiliza do suporte da palavra, sobrepondo a imagem para contar sua história. Isso está intrinsecamente ligado a questão de se tratar de uma história de ninar, subtítulo do filme que ele se preocupou em frisar, mas que termina exigindo do espectador uma maior capacidade de entrar no universo fantástico que está propondo.

Há uma singularidade que ele explorou nessa obra, até determinado momento do filme somos direcionados para um caminho no reconhecimento dos personagens que na verdade não é o que permanecerá até o fim. Isso não seria nada de novo já que em O sexto sentido(The sixth sense, 1999), ele explorou a trama de forma que revertesse as espectativas no final, e nos deixou em constante dúvida no seu Corpo Fechado(Unbreakable, 2000), mas na construção dramática desse filme há uma clara divisão em duas partes e o caminho da primeira é reforçado pela afirmação de um dos personagens no próprio filme, o mais novo morador do condomínio, um crítico de cinema.

Shyamalan parece fazer um “primeiro filme” só para tocar no ponto de encontro entre críticos de cinema e o cineasta. Dessa forma, é criado todo um ambiente onde começam a se configurar atributos para cada personagem, onde os espectadores iniciam uma identificação com cada um, e que ele reforça com as palavras do crítico. Um verdadeiro exercício de metalinguagem do drama. Até o momento em que se reverte a situação, e coloca o crítico na posição de arrogante(o personagem já é apresentado caricaturamente dessa maneira) por sua suposição errada e muda o rumo dos acontecimentos. Seguindo essa linha de raciocínio, começa um “segundo filme”, onde procura demonstrar que não há respostas prontas, que o melhor caminho é o da fantasia. O exemplo disso está na cena em que um garoto descobre a “verdade” da história olhando para caixas de cereais dentro de um armário. O mais interessante é que quando ocorre essa cena estão vários personagens unidos esperando a resposta do garoto, e após ele decodificar as caixas de “sucrilhos” vemos o plano de uma pessoa dormindo do outro lado da sala. Sonho e cinema, fantasia e sala escura. Shyamalan afirma aí que não adianta procurar respostas, é só fantasia e devaneio. E assim caminha com sutileza para o momento de iluminação de um dos personagens, é a fantasia que o faz se encontrar consigo mesmo, ela cura e o faz curar novamente, o que ele havia esquecido e deixado de acreditar.

É importante frisar também que esse é o filme em que o próprio diretor mais aparece em cenas, como o personagem de um escritor que intitula como Livro de receitas sua “obra dialética” não terminada, o que se relaciona com a cena inicial, onde ele manipula significados. Aparecendo em seu próprio filme também possibilita o diretor fazer artimanhas, como no momento em que o personagem que ele está interpretando é apresentado a “narf”, que possui o nome de Story(estória), e depois do encontro o escritor informa que ficou com idéias mais claras. Numa alusão ao momento em que o próprio Shyamalan como roteirista se viu encontrando pela primeira vez com sua criação, e como ela o ajudou a construir a trama. Além das possibilidades do nome Story, já que pode-se acreditar ou não na estória que o diretor está propondo. Dessa forma ele acabou fazendo seu filme menos acessível para o público geral e mais interessante para os críticos.

Há aspectos infantis que acabam apagando um pouco o brilhantismo das experimentações ditas acima, na pura demonstração de domínio da técnica de assustar a platéia em alguns momentos, sem fins na narrativa ou na fábula. Uma das coisas que acontece menos em Corpo Fechado, mas em quase todos seus outros filmes. Junta-se a isso a caricatura do crítico de cinema, ambos soando desnecessários. Ao terminar a sessão, o balanço que fazemos é de um filme que não chegou ao seu mérito máximo por algumas problemas que saltam na tela, da mesma forma que suas qualidades.

Elenco: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Noah Gray-Cabey, Jessica Graham, Cindy Cheung, Bob Balaban, Sarita Choudhury, Brandon Cook, Mary Beth Hurt, Freddy Rodriguez, M. Night Shyamalan, Brian Steele, Jeffre Wright / Direção e roteiro: M. Night Shyamalan / Produção: Sam Mercer e M. Night Shyamalan / Fotografia: Christopher Doyle / Música: James Newton Howard / Edição: Barbara Tulliver / Desenho de Produção: Martin Shields / Figurino: Betsy Heimann / Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic / Duração: 110 minutos / Site Oficial: A dama na água

Transamérica

Setembro 4, 2006

No Cinema 

Transamerica, EUA, 2005

A estréia de Duncan Tucker como diretor de longa metragem, o mesmo já tinha dirigido um curta em 2000(The moutain king), utiliza a leveza na forma de narrar para capturar o espectador e poder tratar de uma história não tão usual.

Bree Osbourne, um transexual de Los Angeles, se prepara para uma operação de mudança de sexo, mas recebe um telefonema de um jovem a procura do pai. Bree percebe que ele deve ter sido o resultado de um relacionamento no passado, quando ainda era homem. Ele vai em busca do rapaz mas faz segredo sobre sua verdadeira identidade.

A partir daí, o filme caminha numa direção de busca interior dos personagens, e também do país. Ao mesmo tempo que os conhecemos e acompanhamos suas transformações, fazemos um passeio cruzando de carro os EUA (Nova York - Los Angeles). Transamerica é na verdade um road movie que usa a comédia para falar de um tema sério, do diálogo para flertar com as superproduções hollywoodianas e da geografia para fazer referência ao clássico cinema western norte americano.

A busca por um passado materializado no filho está no tema de alguns filmes do momento, Jim Jarmusch fez Flores Partidas (2005) e Win Wenders o Estrela Solitária (2006). Dessa vez foi Duncan Tucker, inserindo um pai que deseja expurgar sua masculinidade de forma definitiva. Com uma performance marcante a atriz Felicity Huffman conseguiu interpretar um personagem extremamente complexo com humor em situações críticas, além de ser responsável por uma das cenas mais comoventes.

Com diálogos afiados e inteligentes, Transamérica brinca com outras produções, como a conversa em que afirmam que O Senhor dos Anéis é um filme gay, ou sobre a maneira que os caubóis usam o chapéu e seus significados.

 Em quase todo filme, sentimos uma sinceridade com o espectador, como se fôssemos cúmplices daqueles acontecimentos, além de utilizar um terreno já bastante explorado em outras produções, como o interior e o Oeste dos EUA, só que inserindo elementos originais. Duncan Tucker brinca com referências pré estabelecidas pelos norte-americanos, e faz uma sátira ao seu próprio cinema.

Se a forma tivesse sido mais bem trabalhada, como o conteúdo,  passaria para um patamar acima. Mesmo assim, Transamérica continua muito interessante, principalmente porque teve um custo baixo, demonstrando que os orçamentos milionários não são o principal fator para uma obra consistente. Talvez justamente isso tenha gerado sua franqueza.

Elenco: Felicity Huffman, Kevin Zegers, Fionnula Flanagan, Elisabeth Peña, Graham Greene, Burt Young, Carrie Preston, Verida Evans, Jon Budinoff, Raynor Schenie, Bianca Leigh, Danny Burstein / Direção e roteiro: Duncan Tucker / Produção: Rene Bastian, Sebastian Dungan e Linda Moran / Fotografia: Stephen Kazmierski / Música: David Mansfield / Edição: Pam Wise / Desenho de Produção: Mark White / Figurino: Danny Glicker / Duração: 103 minutos /  Site Oficial: www.transamerica-movie.com

DVD

Dario Argento. L’Uccello dalle piume di cristallo.Itália, Alemanha.1970 

Um dos pais do terror (‘Giallo’) Italiano 

 Itália, 1970. O então crítico e roteirista Dario Argento dirige seu primeiro filme de longa metragem. Após a parceria com Bernardo Bertolucci na criação do roteiro de Era uma Vez no Oeste (Once Upon a Time in the West, 1968) de Sergio Leone, Argento decide empunhar cameras e fazer o que foi o pontapé inicial em sua carreira, O pássaro das Plumas de Cristal. O primeiro da chamada trilogia dos animais, os seguintes foram O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas no Veludo Cinza .  

 A itália já consagrada com os sucessos do neo-realismo de Visconti, Rosselini e De Sica ou do hiper-realismo de Felinni começa a produzir Terror e inaugura um novo gênero no cinema italiano, o ‘Giallo’(amarelo), que eles associam à mistério e mortes violentas. Os primeiros filmes com tais características foram La Ragazza che sapeva troppo (Blood and Black Lace – 1963) e Sei donne per l’assassino (The Girl Who Knew Too Much – 1964) de Mario Bava, que não tiveram a recepção de público e crítica que houve com o filme do Argento, mas ajudaram a fincar uma nova estética. 

Uma das maiores características de Argento é seu estilo, seus filmes acabam tendo marcas em comum. Em uma entrevista Michael Haneke disse que o ‘filme estiloso’ é uma mentira, e que isso contradiz com o cinema, já que esse tenta lidar com a realidade, mas alguns diretores driblam isso e o estilo é justamente o que nos hipnotiza, gerando uma atração parecida com o que ocorre através da verossimilhança.  

Em “Os pássaros das plumas de cristal” a fábula e a narrativa tem forças independentes, que se unem na tela de maneira criativa. Nota-se referências a Hitchcock, mas o filme as usa com originalidade e caráter próprio.

O filme começa sua trama quando o escritor americano Sam Dalmas, que vive em Roma, testemunha a tentativa de assassinato de uma mulher por uma figura misteriosa. Como a polícia não resolve os caso, ele começa a investigar o crime por conta própria. Os assassinatos vão se sucedendo até o escritor entrar na lista das vítimas do serial killer. O argumento não é tão original, a já clássica história de serial killers que foi levada pela primeira vez ao cinema dez anos antes por Hitchcock em Psicose(1960), é revista e utilizada em função de uma narrativa diferenciada. Onde antes tínhamos um elaborado trabalho do que era ou não mostrado através da decupagem dos planos (closes, plano médio, planos gerais), agora há uma exploração do interior da imagem, e o claro escuro da fotografia é utilizado para se fazer um recorte dentro do quadro e deixa-se mostrar ou não, explorando a fantasia do espectador.  

Dario Argento tem um cuidado em cada plano, lembra a elegância de seu conterrâneo Luchino Visconti, mas direcionado para o bizarro, o terror. A fotografia de Vittorio Storaro  e a trilha sonora composta por Ennio Morricone tem singularidade na obra. A primeira tem uma especificidade de conseguir explorar a imagem de maneira que ajude no caráter psicológico da obra, fazendo o espectador ter medo do escuro.  Já a trilha de Morricone possui uma qualidade esmerada de misturar músicas suaves que lembram canções de ninar com sons atonais e esgarniçados. Como se, ao mesmo tempo que nos coloca pra dormir, procura nos assustar.  

Um dos elementos que podem ser questionados são alguns personagens e atuações, o que não é o ponto forte de Argento até nos filmes posteriores. Em alguns momentos demonstram pouca consistência, ou se tornam caricatos, além de alguns diálogos que soam infantis. Isso reforça a idéia de que a força de seus filmes está na forma e no tema tratado. 

Uma das melhores características em Os pássaros das plumas de Cristal é a inserção de elementos que muitas vezes não são percebidos de imediato por quem assiste, mas que contribuem para compor o universo visual do filme, gerando uma teia de significados no subconsciente do espectador, remetendo a um mundo dos sonhos. Melhor dizendo, dos pesadelos. 

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Curiosidade: Dario Argento é filho do produtor de cinema Salvatore Argento com a fotógrafa brasileira, Elda Luxardo.  

DVD  

Análise de 2001:UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO

Stanley Kubrick. 2001:A Space Odyssey, EUA, 1968

Poesia visual

Imaginemos um filme de Ficção Científica: Computadores inteligentes, naves espaciais, andróides, seres irreais, futuro! Mas não é assim que começa um dos melhores filmes sobre esse tema dos últimos tempos. 2001: Uma Odisséia no Espaço, criação do diretor e co-roteirista Stanley Kubrick com o escritor e co-roteirista Arthur C.Clark, começa com imagens altamente reflexivas. São imagens do passado, e de um passado bem distante, aproximadamente quatro milhões de anos atrás. “Será que eu entrei na sala errada?”, essa deve ter sido alguma das perguntas que os espectadores fizeram ao começar a assistir esse filme pela primeira vez, já que durante aproximadamente vinte minutos assistiram a pré-história, filmada com uma realidade assombrosa, a tal ponto de especularem que os seres usados no início do filme seriam macacos reais (circula na Internet que isso impossibilitou o filme de ganhar o Oscar de melhor maquiagem na época). Um dos mitos dessa obra-prima.

O primeiro momento do filme é de total estranhamento, são quase três minutos (2’56’’) de pura banda sonora sem nenhuma imagem. A tela escura e os sons abstratos e sombrios da música chamam a atenção dos espectadores, exacerbando a curiosidade, além de criar uma ambiência que tem a ver com o que é mostrado a seguir: A imagem do espaço, demonstrando a Terra, a lua crescente e o sol, ao som de “Assim falou Zarathustra” de Richard Strauss, é um momento especial, como a música, feita em referência a obra de Niestche, denotando a previsão de um processo evolutivo. A música tem um papel importantíssimo nesse filme, ela não é usada somente como acompanhamento das cenas, quase toda clássica, ela exerce significados que complementam as imagens. A valsa de Johan Strauss, “Danúbio Azul”, é explorada ao extremo, e casa perfeitamente com as imagens deslizantes e circulares do espaço, os objetos estão em constante movimento(em órbita) e a música reforça isso, seu caráter crescente evoca expansão e evolução. “O Ballet” de Khatchaturian faz as naves espaciais dançarem. Além das músicas de Giorgi Ligeti que completam o significado da viagem através do “portal estelar” (“Lux Aeterna”), com seus sons psicodélicos e da chegada no quarto em estilo vitoriano ao final do filme(“Réquiem”), com ruídos de gotas d’água e vozes irreconhecíveis. Transferindo-nos completamente para aqueles ambientes, estranhos e insólitos.

Após os créditos iniciais que aparecem na tela na cadência da música, vemos uma imagem do nascer de um dia, com sons de grilos e pássaros, assistimos “A aurora do homem”. São imagens de um deserto com seres pré-históricos dividindo o espaço físico, é na verdade um retorno ao nosso passado, aos nossos ancestrais . Percebe-se nas primeiras imagens a guerra entre as variadas espécies, macacos com tigres e antas. Há elipses temporais criadas através de “fades” para significar a passagem de tempo. Logo após acompanhamos a guerra entre seres da mesma espécie, os macacos, principalmente por localidades e água. Um dos macacos atravessa uma poça para demarcar seu domínio sobre a mesma. Importante frisar que nessas cenas nota-se um cuidado com a fotografia, para que sempre houvesse um facho de luz em direção da água, demonstrando sua riqueza e seu valor, além de direcionar nosso olhar. O tempo passa, os macacos começam a brigar entre si por comida e por espaço nas cavernas, onde se protegiam à noite. Sempre os que não conseguiam espaço ficavam grunhindo fora das cavernas, enquanto os de dentro respondiam com grunhidos mais altos. É mostrados um pôr do sol e a lua crescente, como a que surge no alinhamento no início do filme, logo após vemos um macaco acordando e se assustando com o que vê, que está fora do quadro, começa a grunhir e propositadamente acorda os outros, só depois disso é demonstrado aos espectadores o monólito bem próximo a eles, iluminado com um facho de luz. Uma trilha sonora sempre acompanha a aparição do monólito durante todo o filme, é um som crescente, um conjunto de ruídos, vozes, com sons agudos. Os macacos estranham aquele objeto e se aproximam para verificar, tocando, cheirando, percebem que é uma superfície lisa com quinas, diferente das rochas grosseiras que estão acostumados a escalar. É inserido um plano, mostrando a Lua e o sol alinhados do ponto de vista da terra, mais precisamente do monólito, reforçando a idéia da temporalidade dos acontecimentos, o monólito surge no momento de lua crescente, aquele descrito através das imagens no início do filme, significando período de evolução.

Após essa “aparição”, passam alguns dias e um grupo de macacos acha uma ossada de anta, a maioria não se interessa, mas um dos macacos permanece olhando para os ossos, ele senta-se, é mostrado um plano aproximado, vemos somente os ossos e um macaco em contra-plongée (ressaltando sua posição diante da ossada, além de significar crescimento intelectual), ele os olha como se tentasse decifrar um enigma, faz um movimento com a cabeça como se estivesse pensando, racionalizando algo. Nesse instante é introduzido novamente o plano do alinhamento visto do monólito e é inserida a música de R.Strauss, “Assim falou Zarathustra”, reforçando ainda mais a questão da temporalidade e da evolução. O macaco pega um osso entre vários, gira como um semicírculo(lua crescente) e bate devagar contra os demais, ele percebe a natureza do osso, é mais resistente que os demais, começa a quebrar os outros ossos, para segurar o osso com as duas mãos pela primeira vez sustenta o corpo somente nas duas patas traseiras, quebra o crânio da ossada, há um corte para uma anta caindo morta. Destroça o crânio, vemos outra anta caindo, demonstrando a possibilidade de matar quantas quisesse. A face do macaco mostra seu momento de euforia, como num grito de “eureka” ele lança o osso pra cima. Após isso vemos uma seqüência de planos significativos, um macaco subindo uma pequena ladeira como se tentasse se esconder, segurando um osso e comendo um pedaço de carne, depois já vemos outro plano, onde vários macacos comem carne e o que estava com o osso numa posição superior em cima de uma rocha, representando liderança. Depois um último corte, a cena onde vemos macacos bem pequenos sentados e brincando com ossos, denotando a passagem de conhecimento para as novas gerações. Algo aconteceu: o conhecimento. E foi inserido no cotidiano desses seres com momento demarcado: após a aparição do monólito, com a lua crescente.

Uma imagem mostra mais um pôr do sol, que se olhado com atenção demonstra que a lua, antes vista sempre crescente, agora está cheia, nova, denotando os momentos de mudança que virão a seguir. Os macacos que foram expulsos voltam de encontro à poça d’água do início do filme. Todos com ossos nas mãos, nota-se que somente esse grupo sustenta o corpo nos dois pés, o outro grupo não, agora o raio de luz que ficava sob a poça está do lado dos que tem os ossos nas mãos, demonstrando o poder da “arma” descoberta, o osso, o conhecimento. Não se contentando em obter comida eles também querem água e espaço físico, assim matam um dos outros macacos do grupo oposto com os ossos. Na euforia da vitória um osso é jogado pra cima, que agora gira subindo, formando um círculo(lua nova). O osso sobe no sentido anti- horário e desce no sentido horário, um índice para o futuro que virá. Acontece aqui o maior corte temporal da história do cinema, o osso que caía, é cortada para uma nave orbitando a terra(num formato parecido) ao som da valsa de J.Strauss.

A montagem do filme tem características peculiares. Não há fusões, o corte seco é o mais utilizado, contrapondo planos às vezes não contínuos, usado para gerar significados e não simplesmente para contar linearmente a história. Quase sem diálogos, o filme é construído a partir da justaposição das imagens, alguns planos são longos e lentos, principalmente quando são mostradas imagens do espaço. É uma maneira de construir um clima para essas imagens, já que, antes desse ainda não havia nenhum filme que retratasse com fidelidade como se portava os objetos no espaço, a relação da não gravidade e do eterno movimento foi explorada com precisão. Por tratar de elementos que não existiam na época é preciso de várias cenas descritivas, em alguns momentos parecemos assistir um documentário, como no processo do reconhecimento de voz ou nos longos planos demonstrando o interior das naves espaciais. Quando ocorrem diálogos, como os que acontecem na Estação, são cheios de significados, como quando Heywood encontra outras pessoas conversando, eles falam em Russo( além de seus nomes: Dra. Stretyneva, Dr. Andrei Smyslov), fica intrínseco aí uma discussão sobre a corrida espacial entre Norte-americanos e Russos que acontecia na época do filme. Mas quem teria chegado primeiro? No diálogo posterior, isso é demonstrado, já que somente Heywood detém informações sobre o que acontece na Lua, explicitando quem está no comando. Interessante também é a mensagem intertextual que existe numa sala por trás das pessoas que conversam na estação, uma palavra escrita em letras maiúsculas: HILTON, que é uma referência a tradicional rede de hotéis norte-americana, que possui sedes em vários locais do mundo. Há também uma cena interessante, quando a nave de Heywood está há caminho da Lua, alguns tripulantes assistem a imagens de lutas de sumô em telas widescreen, como referência a disputa da chegada na mesma. Além da clássica referência do supercomputador HAL, suas três letras precedem as letras de IBM, que é uma das maiores empresas de informática dos EUA.

É interessante notar como a fotografia dialoga com a montagem, como nas composições utilizadas nas cenas do espaço, a maioria dos objetos tem aspectos circulares e giram. Na cena que Heywood chega na estação, o elevador é circular, o movimento que a câmera faz é num “travelling” circular e a terra ao fundo nas janelas (tudo gira). O uso das cores também é marcante, o azul e o vermelho, são as mais representativas. O vermelho sempre está associado ao perigo ou ao retorno ao passado, como às imagens avermelhadas do início do filme, nas paisagens desérticas ou ao “olho” de HAL, que se volta contra os seres humanos. O azul está relacionando com o futuro e esperança, como na vista da terra do espaço ou na “Criança estrela” do final do filme além de alguns botões de dentro da nave. Os “flares” e os reflexos são muito bem utilizados, o primeiro é marcante nas cenas em que aparecem o monólito, dando um tom mágico. E o segundo, na parte frontal do capacete de David, sob seu rosto. Principalmente quando reflete HAL, denotando um significado de unicidade entre os dois, existe algo de David em HAL e vice-versa .

A fotografia nos remete aos efeitos especiais, concebidos e dirigidos por Kubrick. O fotógrafo que existia antes de se tornar diretor de cinema aflorou nesse filme, que abusou das perspectivas para criar profundidade, iluminação impecável e angulações indescritíveis. Os efeitos especiais foi o item que o fez ganhar o único Oscar dessa obra. O uso de cenários gigantescos e em tamanhos reais ou com possibilidades de movimentos antes nunca executados geraram imagens surpreendentes. As experimentações visuais, como a viagem através do “Portal estelar” ou as imagens de Júpiter, com cores vibrantes, são marcas indeléveis nesse filme. Considerando que na época não existiam computadores para criar elementos virtuais, o filme demonstra profundo engajamento em técnicas de superposição e de trabalho com miniaturas e maquetes.

O filme tem uma característica peculiar, seus protagonistas somente aparecem depois dos primeiros cinqüenta minutos de filme, logo após a segunda aparição do monólito na Lua, quando esse envia um sinal para Júpiter. Há sempre uma questão de aparição x evolução, o monólito está na lua sinalizando um acontecimento do conhecimento, intelectual, é como se representasse nossa evolução. Cada vez querendo ir mais longe.

David Bowman(Keir Dulela) e HAL (voz de Douglas Rain ) são os personagens principais. As suas características são quase invertidas propositadamente. Bowman é tranqüilo, seguro e prático, já HAL, que é a máquina, é curioso, orgulhoso, mentiroso e ambicioso. Ele que foi criado pelo homem, incorpora seus defeitos e volta-se contra o próprio homem, como o macaco no início do filme que não admitiu ter somente a comida, e foi de encontro aos seus semelhantes, matando-os para tomar-lhes água e espaço.
Bowman e HAL surgem na Viagem a Júpiter, a bordo da nave Discovery, que possui uma semelhança a um espermatozóide, semelhança que nos remete a imagem final do filme, a gestação da “Criança estrela”. A aparição dessa nave e dos tripulantes representam um segundo momento do filme, nota-se isso pois até a trilha sonora é distinta. A valsa de J. Strauss dá lugar ao “Ballet” de Khatchaturian. Passa-se a ouvir ruídos constantes de ventoinhas, como se fosse o coração de HAL, além da respiração de Bowman e o silêncio, usado depois da morte do colega de Bowman e depois do assassinato dos outros tripulantes que estavam hibernando. Depois das mortes as imagens do espaço, fora da Discovery são sempre em silêncio, representado um luto às ações de HAL.

HAL é tudo aquilo que Bowman não quer mais ser, e pode matá-lo a qualquer momento. Assim o primeiro é eliminado, numa das cenas mais marcantes do filme, enquanto suas placas do centro lógico de memória são retiradas, ele diz “minha consciência está se esvaindo”, “eu posso sentir”, e começa a cantar uma música que seu construtor o havia ensinado, que possui frases do tipo, “estou me sentido meio louco…” ressaltando ainda mais a humanização de HAL. Após isso Bowman é “premiado” com o máximo da evolução, transforma-se em estrela. Isso é uma referência ao conto “Sentinela” de Arhur C. Clarke, que a obra é baseada. No conto, Clarke diz que a quantidade de estrelas no céu é equivalente à quantidade de seres humanos que nasceram e morreram, então é possível que exista uma estrela para cada ser que existiu. Assim, várias pessoas podem ter se tornado estrelas em seu processo evolutivo, e isso será demonstrado em algum momento em sua vida, no filme foi o momento de Bowman.

Kubrick

Caché

Agosto 18, 2006

No Cinema

Michael Haneke, Caché. França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005

Imagens e palavras

Ao sair da sessão de Caché eu afirmava, “esse filme aponta para um Cinema do futuro”, algumas pessoas me olharam como se não entendessem o que eu havia acabado de dizer ou não acreditassem na afirmação, já que muitas saiam da sala com rostos desgostosos. Com certeza não é um filme que agradará o público em geral, há uma exigência emocional e intelectual que está longe da passividade provocada pelo domínio do cinema narrativo clássico, além da proposta criada pelo diretor onde o espectador precisa completar as lacunas deixadas abertas no filme. Assim, aqui vai minha análise.

Caché é um filme sobre palavras, sobre palavras que não são ditas. E sua maior capacidade está em usar a imagem da melhor maneira possível para mostrar isso. Stanley Kubrick afirmava que todos os filmes já haviam sido feitos, que a função do cineasta seria tentar buscar algo novo, ou pelo menos fazer diferente. Haneke parece ter ido fundo nessa proposta, e faz um filme onde imagens tem grande plasticidade e caráter de subconsciente, e palavras que dizem mais do que elas significam. O diretor está experimentando e jogando com o Cinema, o maior exemplo disso é a capacidade de nos manipular através da cena que está sendo mostrada e o diálogo que acontece junto com a imagem.

Ao iniciar o filme já temos um diferencial, há um longuíssimo plano fixo da fachada de uma casa e os créditos vão aparecendo sobrepostos nessa imagem, sendo que um após o outro como que enchendo a página de um livro. Após todos os créditos impressos eles se apagam e a imagem permanece, e permanece… Durando mais que o “necessário”, e só depois de um período percebemos que é uma gravação dentro do filme . Há a extrapolação do caráter descritivo da imagem, e o fato de durar mais, gera um novo conceito. Imagens que nos acompanham, remetendo a lembranças.

A história do filme é a seguinte, um casal passa a ser atormentado com fitas possuindo imagens de sua casa deixadas na porta, embrulhada em desenhos estranhos. Cada vez essas imagens vão se tornando mais intimas. Georges Laurent é um apresentador de programa de TV e sua mulher Anne Laurent uma escritora, moram com seu filho adolescente Pierrot.

Ao utilizar do fato de imagens gravadas em video-tape fazerem parte da história, o diretor pôde explora-las ao seu prazer, inserindo quando quisesse na narrativa sem nos comunicar que ali tratava-se de uma cena gravada pelo observador misterioso, somente nos explicando depois de um período através dos diálogos. E pra reforçar isso, ele utiliza da plasticidade própria da imagem pra se auto denunciar, quando mostra o programa de TV que Georges trabalha ou telejornais preenchendo toda a tela mas com qualidade técnica inferior. Dessa forma o espectador é arrebatado pelo filme, como que puxado pelo diretor a embarcar em sua viagem, muitas vezes sendo pego de surpresas.

Após esse arroubo técnico-criativo o filme passa a demonstrar que seu tema é muito mais amplo do que parecia, e o thriller que a sinopse indicava dá lugar para um forte caráter psicológico. O foco que ficaria na descoberta do observador que envia as fitas passa para a dissecação das personalidades dos personagens vigiados, já que cada vez mais penetramos no íntimo deles e percebemos como a falta de comunicação pode impedir a felicidade, a paz e até o amor.

No primeiro diálogo do filme indica-se um fato , “como ele estava tão perto e eu não percebia”, Georges conversa com Anne sobre a gravação dele chegando em casa enviada pelo observador. Essa frase serve também para demonstrar o impasse que acontece com o casal devido a dificuldade de se ter uma conversa franca, George tem dificuldade em contar seus problemas, de falar sobre seus medos e angustias. E isso gera uma desconfiança tremenda para Anne, que não o entende, já que sua personalidade é o oposto disso, é mais aberta e prática. Enquanto ele esconde, ela mostra. A chegada das fitas resulta num desencadeamento de incertezas, já que em alguns momentos enquanto Georges mente para Anne a imagem gravada o desmente.

“A dor compartilhada é mais fácil de carregar”

Caché aponta para um cinema do futuro porque traz novidades para o universo cinematográfico. Experimentações a respeito da imagem e seus conceitos, maior interatividade entre o espectador e a obra, além de sutilezas tão distantes hoje em dia do dito “cinemão”. Assim, Haneke constrói seu filme através desses detalhes, metáforas, e nos faz pensar, cobra-nos ajuda para desvendar os mistérios do ser humano. Um exemplo disso é o estúdio do programa de Georges e sua casa, ambos possuem uma sala onde a parede é formada por vários livros enfileirados, isso entra em choque com sua personalidade, ele é um apresentador de TV, gera e vive arrodeado de informação, mas não consegue comunicar claramente seus sentimentos com sua esposa ou seu filho.

A incomunicabilidade surge na conversa familiar e atinge seu ponto máximo na intransigência de Georges com os Argelinos. Majid é o passado que Georges não quer relembrar mas que está sempre presente para ele através de sonhos, o oposto também acontece com Majid, só que através da TV. Existe uma relação muito forte entre os dois sem precisar do encontro físico, que se dá 50 anos depois de uma separação traumática. É pra onde apontam as imagens que duram, a lembrança personificada.

A falta de tempo e palavras são elementos que permeiam todo o filme. A imagem síntese disso é demonstrada quando na discussão familiar sobre o desaparecimento de Pierrot, entre Georges e Anne a TV auncia os acontecimentos na Palestina, onde a intolerância e falta diálogo é conhecida em todo o mundo. Haneke aponta alí que o problema é maior, a família do filme é uma referência pra que se discuta a questão da intolerância em toda a sociedade. O diretor pontua o filme com essas questões, como no exemplo da discussão de Georges com um ciclista negro, ambos estão errados, mas nenhum dos dois cedem. Não é a toa que o choro é outro elemento marcante, os personagens dificilmente sorriem, há uma grande carga de ressentimento e mágoas. Esperam estar sozinhos pra colocarem esses sentimentos pra fora. A solidão reina em alguns momentos.

Há também o uso de artimanhas para nos confundir, como algumas inserções rápidas da imagem de Georges quando criança em momentos distintos do filme – a imagem e sua pseudo imagem – resultado do subconsciente de George aflorando, mesmo sem sabermos que trata-se dele, só depois o diretor nos explica quando mostra a infância de George através de seus sonhos. Ou então os desenhos enviados com as fitas pelo observador misterioso, ligações diretas com o que aconteceu ou acontecerá com alguns personagens mas que não tem clara explicação na diegese, funcionando mais como referencia imagética para o espectador do que como prova criminalista.

Mesmo nos momentos em que o filme discute a infância, nas conversas entre mães e filhos, tanto a de George com sua mãe ou entre Anne e Pierrot, percebemos que o objetivo é demarcar ainda mais a questão da falta de palavras. George não se abre com sua mãe, a dificuldade de conversar sobre sentimentos é mais velha do que parece. Já Pierrot cobra da mãe informações sobre o refúgio que ela cria no amigo, mas ela não consegue explica-lo e a situação piora. Anne tenta o carinho, o amor surge pela primeira e única vez no filme através de palavras, mas carece de sentimentos, é ouvido mas parece não ser compreendido.

Não só a criança, mas todo ser humano tem a capacidade de fantasiar quando não fala sobre algo. Isso nos remete a imagem final do filme, a saída da escola. Onde acontece sutilmente o encontro entre Pierrot e o filho de Majid, eles conversam no canto esquerdo da tela e o diálogo não é transmitido para nós. Uma indicação de que os problemas devem ser discutidos no início. Quando isso não acontece, eles atrapalham nossa visão, além de bloquear nossas palavras.

Com Daniel Auteil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Lester Make donsky, Danie Durval, Walid Afkir, Nathalie Richard, Bernard Le Coq.

Acerca de la vida

Agosto 3, 2006

SOBRE A VIDA

Ignácio Ceruti, Acerca de la vida, Cuba, 2003
(Cor, 11 min)

Poesia do silêncio

Sem diálogos ou música, Ceruti usa somente imagens e ruídos e faz um filme sobre a fragilidade humana de dentro de um cemitério, criando poesia já com o título, “Sobre a vida”.

Logo após alguns minutos de filme onde tínhamos imagens do concreto de lápides e corredores, começamos a acompanhar o processo de exumação e a colocação de cadáveres em caixotes numerados. Cadáveres porque os ossos eram retirados das tumbas ainda com um pouco de pele, pelos e roupas. Para que entrassem nos caixotes era necessário que os restos mortais fossem esquartejados, assim acompanhamos todo o processo, o que resulta em imagens de uma força visual tremenda, como se cada quadro nos martelasse, demonstrando como somos seres frágeis, perecíveis, escondidos nas carapuças(concreto) que nos cabem.

Um forte exemplo de como a imagem por si só já diz muito, um trabalho cuidadoso do diretor de fotografia Matheus Rocha, com planos fixos e marcantes, de composições admiráveis, aliado a um desenho de som minimalista, criado por Shinya Kitamura, onde o silêncio e o som do arrastar de caixões é predominante. Um trabalho curto e intimista que faz muito barulho em nossa cabeça mesmo não tendo quase som algum.

“Os incompreendidos”(Les Quatre Cents Coups, França, 1959)
de François Truffaut

Interessante quando vemos um filme e ele entra na lista dos preferidos automaticamente, sem pedir licença. Acho que é um dos poucos que vi duas vezes seguidas por puro prazer, e quando está acabando pela segunda vez, ainda sentimos aquela vontade que se prolongasse mais.

A constatação que faço é que trata-se de uma obra prima esse filme do Truffaut. Não somente pela forma que trata o tema, mas pelo local exato de posicionar a camera enquadrando seus atores e objetos da maneira mais cinematográfica possível, pela atuação de Jean Pierre Léaud, no papel que o destacaria como astro revelação em todo o mundo, na trilha simples e minimalista pontuando todo o filme. Na fotografia PB crua e extremamente poética que registra uma das épocas mais importantes de todas nossas vidas: A adolescência.

Uma das coisas que mais me chamou atenção é a maneira que alguns detalhes são filmados, como o tempo dado ao garoto atrapalhado com a caneta na sala de aula, a vela que o protagonista acende para Balzac o ajudar na prova de redação, o brinquedo sobre a perda da gravidade(dessa cena até o próprio Truffaut aparece como um dos participantes), as expressões no rosto de crianças assistindo uma peça de marionetes, a garrafa de leite roubada na cidade(renegado em casa acolhido pelas ruas), o momento exato de revelar aos espectadores determinado elemento da hitória, os policiais brincando de jogo de tabuleiro na delegacia em que o protagonista passa a noite antes de ir pro reformatório, a dor de estar tão perto de um amigo e não poder abraça-lo, um chapéu de pele que diz muito mais do que um simples chapéu, a corrida em busca do mar… Um dos filmes mais humanistas que já vi.

Não vou fazer uma análise agora, isso fica pra depois, era só pra dizer como fiquei encantado, principalmente por se tratar do primeiro longa metragem de um Cineasta.

Oz, Godard, Truffaut

Maio 5, 2006

Filmes revistos em vídeo recentemente e que merecem comentários.

“O mágico de Oz” (The Wizard of Oz, EUA, 1939)
Direção: Richard Thope, George Cukor, Victor Fleming e King Vidor. Creditado como Victor Fleming.

Fábula sobre o auto-conhecimento recheada de magia e Technicolor que só o Cinema pode produzir. Sem computação gráfica, com um trabalho cuidadoso de cenografia e nada mais nada menos que quatro diretores(em momentos distintos). O filme pode soar ingênuo hoje, mas já demonstrava o que as superproduções são capazes de fazer: Mexer com nosso imaginário, direcionando uma idéia, nesse filme é de que “não há nada melhor do que o nosso lar”. Num período de depressão dos EUA(década de 30), nada melhor do que um analgésico cinematográfico com forte caráter nacionalista.
P.S. O filme está perfeito restaurado e com formato original de 4:3. “Over the Rainbow”, cantada no filme, permanece uma das melhores coisas da obra.

“Acossado” (À Bout de Souffle, França, 1959)
Direção: Jean Luc Godard.

Sempre é bom conferir a capacidade de Godard de transformar acasos em poesia. Filmagens em locações com luz natural, os planos seqüência deslumbrantes, a montagem descontínua aparecendo pela primeira vez, a ironia fina e sátira aos filmes americanos ou a própria intolerância dos EUA.
P.S. A música do filme sempre me deixa arrepiado, ainda mais depois de Bertolucci a usar em “ Os sonhadores”, ouvindo agora ela tem uma carga poética/imagética muito maior.

“Jules e Jim” (Jules et Jim, França, 1962)
Direção: François Truffaut.

Orquestração maravilhosa de imagens e sons regida por Truffaut. Narrativa off, Tratado sobre o amor, crítica a Guerra, referências a Oscar Wilde, Shakespeare, Picasso, frases curtas e extremamente poéticas… Uma das maiores junções de Literatura e Cinema já realizadas, um menage a trois no início do século, junto com um conjunto de atuações espetaculares.
O melhor de tudo é que toda essa miscelânea é contada numa estória que qualquer ser humano entenderia.
Simplesmente soberbo, preciso rever.
P.S. Quem não se apaixonaria por Catherine?