Salvador-Santos, via Paulínia
maio 31, 2010
(Texto enviado para a lista de Cinema da Bahia em 26/05/10)
Nas divagações, me pego em mais um “road movie” anual. Explico o fato, devido à metade de minha nova família ser paulista, uma vez por ano, quase sempre nas férias, vamos para Santos-SP. Nessas viagens, sempre escolho companhias ilustres, dessa vez foi Vinicius, ele mesmo, o de Moraes, em “O Cinema de meus olhos”. O livro é uma coletânea de crônicas sobre Cinema, do período em que ele escrevia para alguns jornais, principalmente “A manhã” e “Última Hora”.
Vinícius está sendo um companheiro maravilhoso, mas quase foi trocado quando encontrei, com muita felicidade, uma edição de “Escritos sobre cinema – trilogia de um tempo crítico”, compilação de livros do André Setaro, na Martins Fontes do Gonzaga¹. Interessante que estava a conversar na seção de Cinema com outro leitor sobre “Cidadão Cannes”, livro do atual presidente do Festival (desde 2001), o crítico francês Gilles Jacob. O livro trata dos bastidores do Festival de Cannes desde o período que assumiu a presidência. Ao acabar a conversa, não levei o Setaro, pois quero comprá-lo e lê-lo na Bahia, mas não titubeei e tratei de colocá-lo a frente dos demais, em destaque na livraria. Lembrei na hora de “Mondo Cannes”, texto que Edgard Navarro enviou para a lista, saí da livraria com um leve sorriso no rosto. Navarro sempre será referência para mim, e acredito que para todos jovens cineastas, não há como negar seu talento, perspicácia e inteligência. Não possuo sua rebeldia ou ironia afiada. Admiro boquiaberto como consegue tratar dos temas com irreverência, às vezes nem entendo algumas coisas, pois venho de uma criação bastante livre e serena.
O que é ser filho de um poeta?
É ouvir desde sempre que nós somos fruto da natureza e que o homem é um ser maravilhoso. Você faz parte de tudo, dessa forma você é tudo e você também é nada. Aprendi essas coisas desde muito cedo, através de exercícios empíricos, em que meu pai nos levava em caminhadas nas dunas e nas matas. Cortávamos as estradas de asfalto em busca da água de gravatás, de novas espécies de flores, de lagoas de urubus, da areia fresca sobre a sombra de arbustos ao sol escaldante da Praia do Flamengo. Castañeda, Neruda, Drummond, Wilde, Bach, Vila Lobos, Tchaikovsky, Rampal, Gismonti…
- Um lindo som distante de buzina de trem ecoa no silêncio da madrugada e tira-me a concentração do texto - (coisas da cidade de Santos)
Aprendi que a grande maravilha da vida é estar aqui, que tudo que precisamos está ao nosso redor, basta olharmos com cuidado. Com o tempo e no decorrer da vida fui percebendo que o que há de ruim, de mal, também está no homem, está em nós. Somente nos resta escolher, procurar fazer o melhor, o bem. Voltando ao início do parágrafo, corrijo a pergunta:
O que é ser filho de um poeta otimista?
“Quem sair do Abaeté
Rumo às praias do Flamengo
Não de carro mas a pé,
Pelas dunas, mato a dentro
Há de ver belezas tais
Que mal dá pra descrever:
Tem orquídeas, gravatás,
Água limpa de beber
Cavalinhas e teiús,
Borboletas e besouros,
Tem lagartos verdazuis
E raposas cor de ouro
Sem falar nos passarinhos,
Centopéias e lacraus,
Nas jibóias e nos ninhos
De urubus e bacuraus
Vejo orquídeas cor de rosas
Entre flores amarelas
Dançam cores vão-se as horas
Entre manchas de aquarela
Desce a tarde vem na brisa
Um cheirinho de alecrim
Canta um grilo. Sinto a vida:
Tudo está dentro de mim.
Mês de março em Salvador
O verão está no fim.
Todo o mato está em flor
E eu me sinto num jardim” ²
Aprendi que a natureza é vida e morte, mesmo que a morte aconteça é para que a vida continue. A morte faz parte da vida e é transformação. A natureza é sábia, o poeta é sábio. A natureza é amiga do poeta e ele sabe utilizá-la para ganhar a poesia.
Tudo isso para chegar à Arte, para chegar ao ponto onde está minha concepção de Arte. Preciso dela para viver, uso-a para viver, e nela procuro colocar o que importa pra mim. A poesia, o amor e a natureza.
O que é ser poeta?
O que é ser cineasta?
“Plantar o trigo e refazer o pão de cada dia / Beber o vinho e renascer na luz de cada dia/ A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada/ O chão, o chão, o sal da terra o chão, faca amolada/…/Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia/ Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia/ Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser muito tranqüilo/ O brilho cego de paixão e fé, faca amolada” ³
Estou distante da Bahia, mas feliz e triste com algumas coisas. Triste com algumas questões da política pública para o Cinema no estado, principalmente depois de conhecer Paulínia. Mas feliz com a proximidade do início do Panorama – 100 anos de cinema na Bahia/ Orlando Senna / 100 anos de Kurosawa - venho acompanhando as seleções e a programação. Já havia parabenizado reservadamente Claudio Marques pelo seu empenho no Espaço Unibanco Glauber e agora volto a parabenizá-lo pelo IV Panorama Internacional Coisa de Cinema, acredito que será mais um momento importante para a cidade, principalmente as mostras direcionadas a memória e preservação do nosso Cinema.
Voltando a viagem, como Santos era o destino final decidimos antes visitar Paulínia, nome que está ficando cada vez mais conhecido entre os cineastas e “gente do Cinema”. Hotel reservado depois de um pouco de dificuldade (a rede hoteleira já está sentindo o impacto das produções), fomos do aeroporto direto para a cidade. Cortamos a Bandeirantes e logo depois a Dom Pedro I, pronto, chegamos em Paulínia. O encontro com o diretor do Depto. de Cinema somente seria no dia seguinte, dessa forma fomos descansar. Como estávamos toda a família viajando, duro foi convencer a filhota que somente no outro dia iríamos encontrar com os parentes paulistas. O Zoológico próximo ao hotel acabou sendo nosso grande aliado, a natureza ajudou, e ela sossegou.
Paulínia é uma cidade pequena, limpa e silenciosa, além de ter uma das maiores arrecadações do Brasil, devido à produção de Petróleo. A conversa com o diretor do Depto. de Cinema foi bastante proveitosa, o Pólo Cinematográfico é realmente um sonho realizado, uma estrutura enorme, com cinco estúdios, o maior com 1200 metros quadrados. Possuem também salas de edição, pós-produção e um investimento de 16 milhões anuais em Cinema. Estão co-produzindo 20 filmes por ano, divididos em dois editais. Além das oficinas de animação para crianças a partir dos 5 anos, eles aprendem gratuitamente utilizando LEGO a escrever roteiros, dirigir, produzir, filmar, editar e finalizar. Segundo o diretor, a proposta é um investimento em longo prazo, para substituir a retirada de petróleo, que um dia irá acabar. Essa idéia de substituir o óleo pelo Cinema é um projeto ousado e de alto custo, mas extremamente interessante pra quem ama a Arte. Ele informa que está embasado em pesquisas e sempre aprimorando, para que evite a falência, a exemplo da Vera Cruz. Diferente desse último, o Pólo Cinematográfico de Paulínia é mantido com dinheiro público, acho que é importante acompanharmos seu desenvolvimento.
E foi por causa de Paulínia que surgiu o interesse de escrever o texto. Tive vontade de dividir com vocês a experiência de conhecer o Pólo, e acabou vindo assim, num fluxo só, misturado as sensações pessoais da viagem e da vida como um todo, claro que imbuído pelas palavras de Vinicius. Culpa dele! E do Cinema, claro.
Abraços a todos,
Cesar Fernando de Oliveira
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¹ Um dos bairros de Santos, próximo ao mar;
² “Dunas”, poema de meu pai, Fernando de Oliveira. Musicado posteriormente por Rosa Passos;
³ Trecho de “Fé cega, faca amolada”, letra de Milton Nascimento.
As Melhores Coisas do Mundo
abril 23, 2010
Acordar tarde, subir em árvores, baleado(queimada) na rua, ir ao cinema, beijar na boca, passeio nas dunas, férias em Itaparica ou em Ilhéus, música… Essas eram algumas das melhores coisas do mundo para mim quando adolescente. O tempo passa, as perspectivas mudam, as novas gerações vão chegando, a tecnologia faz parte e altera o nosso dia a dia, mas o que não muda é a capacidade de listar o que achamos relevante, o que realmente nos emociona e nos faz ser o que somos.
Fui um pouco receoso assistir As Melhores Coisas do Mundo, mas a talentosa diretora Laís Badanzky (de Bicho de Sete Cabeças), que lançou Rodrigo Santoro nos Cinemas, surpreende mais uma vez. Fez um filme extremamente fiel ao momento atual, uma verdadeira crônica moderna sobre o que é ser adolescente numa família de classe média hoje. O que poderia ser mais um capítulo de Malhação extrapola as expectativas e demonstra um filme bastante sincero e verdadeiro, além de utilizar sutilezas e propostas formais bem realizadas, marcas de um bom filme.
Não deixem de assistir As Melhores Coisas do Mundo, com certeza não irão se arrepender, um filme terno e emocionante. Prestigiem o Cinema Nacional em mais um de seus melhores momentos.
A necessidade da Arte
dezembro 15, 2009
“Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza – esta provocadora – pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que consome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a.
A tensão e a contradição dialética são inerentes à arte; a arte não só precisa derivar de uma intensa experiência da realidade como precisa ser construída, precisa tomar forma através da objetividade. O livre resultado do trabalho artístico resulta da mestria. Aristóteles, tão freqüentemente mal compreendido, sustentou que a função do drama era purificar as emoções, superando o terror e a piedade, de maneira que o espectador, ao se identificar com Orestes ou Édipo, viesse a ser por sua vez libertado daquela identificação e se erguesse acima da ação cega do destino. Os laços da vida são temporariamente desfeitos, pois a arte “cativa” de modo diferente da realidade, e este agradável e passageiro cativar artístico constitui precisamente a natureza do “divertimento”, a natureza daquele prazer que encontramos até nos trabalhos trágicos.”
Ernest Fischer
Qu’est-ce qu’un auteur?
dezembro 11, 2009
Não sou o autor desse texto, não sou quem o imaginou, nem sou quem o escreveu, mas uma coisa é fato consumado: eu existo. Existo porque falo e você me ouve, claro que é preciso estar lendo para que me ouça, e isso é só uma determinação. Outra coisa, sei bem que a comunicação entre nós é meio complicada, que eu não posso te ouvir, que falo mais do que deveria e talvez você nem me entenda. Mas estarei sempre aqui, e se estou aqui, você deve estar aí, porque preciso de você para existir. O que não posso garantir é onde está o autor, não o conheço. Não sei se está vivo ou morto, talvez, ele nem exista.
Um narrador (It)
Canção de ninar
fevereiro 7, 2009

Oh, quão de mansinho
já escura a noite vem…
Dorme, filhinho.
Estão tão cansadinhos
os olhinhos do meu bem…
Dorme, filhinho.
Fora o vento sopra forte,
a chuva está a cair,
mas o meu benzinho
não tem medo, vai dormir;
pois em sua caminha
sonha com a mãeziha
e sorri feliz.
Vai nanar, naran, naran..
Meu benzinho vai nanar
para descançar,
vai nanar, naran naran..
meu benzinho vai nanar
para descançar
uhuhuh
Oh que noite escura,
dormem todos ao redor…
Dorme, filhinho,
pois um santo anjo
vem guardar o meu amor.
Dorme, filhinho.
Brilha no infinito
uma estrelinha multicor,
uma brisa leve
traz o cheiro de uma flor,
e o meu benzinho
sonha com o paizinho
e sorri feliz.
Vai nanar, naran, naran…
Meu benzinho vai nanar
para descançar…
Vai nanar, naran, naran,
meu benzinho vai nanar
para descançar
uhuhuhuh
pom
pompom pompom
pompom pompom
pompom pompom
pompom pompom
pompom pompom
pompom pompom
pompom pompom
…
Canção que tenho cantado e que meu pai cantava pra mim quando eu era pequeno.
Domínio público
dezembro 31, 2007

“ Quando o primeiro bebê riu pela primeira vez, o riso se despedaçou em milhares de partes e todas elas se espalharam, foram saltando. E assim nasceram as fadas.”
Trecho de Peter Pan, de James Matthew Barrie.
Suas obras, em conjunto com as obras de Howard Phillips Lovecraft entrarão em domínio publico no Brasil no ano de 2008.



