2001:Uma odisséia no espaço
Agosto 25, 2006
DVD

Análise de 2001:UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO
Stanley Kubrick. 2001:A Space Odyssey, EUA, 1968
Poesia visual
Imaginemos um filme de Ficção Científica: Computadores inteligentes, naves espaciais, andróides, seres irreais, futuro! Mas não é assim que começa um dos melhores filmes sobre esse tema dos últimos tempos. 2001: Uma Odisséia no Espaço, criação do diretor e co-roteirista Stanley Kubrick com o escritor e co-roteirista Arthur C.Clark, começa com imagens altamente reflexivas. São imagens do passado, e de um passado bem distante, aproximadamente quatro milhões de anos atrás. “Será que eu entrei na sala errada?”, essa deve ter sido alguma das perguntas que os espectadores fizeram ao começar a assistir esse filme pela primeira vez, já que durante aproximadamente vinte minutos assistiram a pré-história, filmada com uma realidade assombrosa, a tal ponto de especularem que os seres usados no início do filme seriam macacos reais (circula na Internet que isso impossibilitou o filme de ganhar o Oscar de melhor maquiagem na época). Um dos mitos dessa obra-prima.
O primeiro momento do filme é de total estranhamento, são quase três minutos (2’56’’) de pura banda sonora sem nenhuma imagem. A tela escura e os sons abstratos e sombrios da música chamam a atenção dos espectadores, exacerbando a curiosidade, além de criar uma ambiência que tem a ver com o que é mostrado a seguir: A imagem do espaço, demonstrando a Terra, a lua crescente e o sol, ao som de “Assim falou Zarathustra” de Richard Strauss, é um momento especial, como a música, feita em referência a obra de Niestche, denotando a previsão de um processo evolutivo. A música tem um papel importantíssimo nesse filme, ela não é usada somente como acompanhamento das cenas, quase toda clássica, ela exerce significados que complementam as imagens. A valsa de Johan Strauss, “Danúbio Azul”, é explorada ao extremo, e casa perfeitamente com as imagens deslizantes e circulares do espaço, os objetos estão em constante movimento(em órbita) e a música reforça isso, seu caráter crescente evoca expansão e evolução. “O Ballet” de Khatchaturian faz as naves espaciais dançarem. Além das músicas de Giorgi Ligeti que completam o significado da viagem através do “portal estelar” (“Lux Aeterna”), com seus sons psicodélicos e da chegada no quarto em estilo vitoriano ao final do filme(“Réquiem”), com ruídos de gotas d’água e vozes irreconhecíveis. Transferindo-nos completamente para aqueles ambientes, estranhos e insólitos.
Após os créditos iniciais que aparecem na tela na cadência da música, vemos uma imagem do nascer de um dia, com sons de grilos e pássaros, assistimos “A aurora do homem”. São imagens de um deserto com seres pré-históricos dividindo o espaço físico, é na verdade um retorno ao nosso passado, aos nossos ancestrais . Percebe-se nas primeiras imagens a guerra entre as variadas espécies, macacos com tigres e antas. Há elipses temporais criadas através de “fades” para significar a passagem de tempo. Logo após acompanhamos a guerra entre seres da mesma espécie, os macacos, principalmente por localidades e água. Um dos macacos atravessa uma poça para demarcar seu domínio sobre a mesma. Importante frisar que nessas cenas nota-se um cuidado com a fotografia, para que sempre houvesse um facho de luz em direção da água, demonstrando sua riqueza e seu valor, além de direcionar nosso olhar. O tempo passa, os macacos começam a brigar entre si por comida e por espaço nas cavernas, onde se protegiam à noite. Sempre os que não conseguiam espaço ficavam grunhindo fora das cavernas, enquanto os de dentro respondiam com grunhidos mais altos. É mostrados um pôr do sol e a lua crescente, como a que surge no alinhamento no início do filme, logo após vemos um macaco acordando e se assustando com o que vê, que está fora do quadro, começa a grunhir e propositadamente acorda os outros, só depois disso é demonstrado aos espectadores o monólito bem próximo a eles, iluminado com um facho de luz. Uma trilha sonora sempre acompanha a aparição do monólito durante todo o filme, é um som crescente, um conjunto de ruídos, vozes, com sons agudos. Os macacos estranham aquele objeto e se aproximam para verificar, tocando, cheirando, percebem que é uma superfície lisa com quinas, diferente das rochas grosseiras que estão acostumados a escalar. É inserido um plano, mostrando a Lua e o sol alinhados do ponto de vista da terra, mais precisamente do monólito, reforçando a idéia da temporalidade dos acontecimentos, o monólito surge no momento de lua crescente, aquele descrito através das imagens no início do filme, significando período de evolução.
Após essa “aparição”, passam alguns dias e um grupo de macacos acha uma ossada de anta, a maioria não se interessa, mas um dos macacos permanece olhando para os ossos, ele senta-se, é mostrado um plano aproximado, vemos somente os ossos e um macaco em contra-plongée (ressaltando sua posição diante da ossada, além de significar crescimento intelectual), ele os olha como se tentasse decifrar um enigma, faz um movimento com a cabeça como se estivesse pensando, racionalizando algo. Nesse instante é introduzido novamente o plano do alinhamento visto do monólito e é inserida a música de R.Strauss, “Assim falou Zarathustra”, reforçando ainda mais a questão da temporalidade e da evolução. O macaco pega um osso entre vários, gira como um semicírculo(lua crescente) e bate devagar contra os demais, ele percebe a natureza do osso, é mais resistente que os demais, começa a quebrar os outros ossos, para segurar o osso com as duas mãos pela primeira vez sustenta o corpo somente nas duas patas traseiras, quebra o crânio da ossada, há um corte para uma anta caindo morta. Destroça o crânio, vemos outra anta caindo, demonstrando a possibilidade de matar quantas quisesse. A face do macaco mostra seu momento de euforia, como num grito de “eureka” ele lança o osso pra cima. Após isso vemos uma seqüência de planos significativos, um macaco subindo uma pequena ladeira como se tentasse se esconder, segurando um osso e comendo um pedaço de carne, depois já vemos outro plano, onde vários macacos comem carne e o que estava com o osso numa posição superior em cima de uma rocha, representando liderança. Depois um último corte, a cena onde vemos macacos bem pequenos sentados e brincando com ossos, denotando a passagem de conhecimento para as novas gerações. Algo aconteceu: o conhecimento. E foi inserido no cotidiano desses seres com momento demarcado: após a aparição do monólito, com a lua crescente.
Uma imagem mostra mais um pôr do sol, que se olhado com atenção demonstra que a lua, antes vista sempre crescente, agora está cheia, nova, denotando os momentos de mudança que virão a seguir. Os macacos que foram expulsos voltam de encontro à poça d’água do início do filme. Todos com ossos nas mãos, nota-se que somente esse grupo sustenta o corpo nos dois pés, o outro grupo não, agora o raio de luz que ficava sob a poça está do lado dos que tem os ossos nas mãos, demonstrando o poder da “arma” descoberta, o osso, o conhecimento. Não se contentando em obter comida eles também querem água e espaço físico, assim matam um dos outros macacos do grupo oposto com os ossos. Na euforia da vitória um osso é jogado pra cima, que agora gira subindo, formando um círculo(lua nova). O osso sobe no sentido anti- horário e desce no sentido horário, um índice para o futuro que virá. Acontece aqui o maior corte temporal da história do cinema, o osso que caía, é cortada para uma nave orbitando a terra(num formato parecido) ao som da valsa de J.Strauss.
A montagem do filme tem características peculiares. Não há fusões, o corte seco é o mais utilizado, contrapondo planos às vezes não contínuos, usado para gerar significados e não simplesmente para contar linearmente a história. Quase sem diálogos, o filme é construído a partir da justaposição das imagens, alguns planos são longos e lentos, principalmente quando são mostradas imagens do espaço. É uma maneira de construir um clima para essas imagens, já que, antes desse ainda não havia nenhum filme que retratasse com fidelidade como se portava os objetos no espaço, a relação da não gravidade e do eterno movimento foi explorada com precisão. Por tratar de elementos que não existiam na época é preciso de várias cenas descritivas, em alguns momentos parecemos assistir um documentário, como no processo do reconhecimento de voz ou nos longos planos demonstrando o interior das naves espaciais. Quando ocorrem diálogos, como os que acontecem na Estação, são cheios de significados, como quando Heywood encontra outras pessoas conversando, eles falam em Russo( além de seus nomes: Dra. Stretyneva, Dr. Andrei Smyslov), fica intrínseco aí uma discussão sobre a corrida espacial entre Norte-americanos e Russos que acontecia na época do filme. Mas quem teria chegado primeiro? No diálogo posterior, isso é demonstrado, já que somente Heywood detém informações sobre o que acontece na Lua, explicitando quem está no comando. Interessante também é a mensagem intertextual que existe numa sala por trás das pessoas que conversam na estação, uma palavra escrita em letras maiúsculas: HILTON, que é uma referência a tradicional rede de hotéis norte-americana, que possui sedes em vários locais do mundo. Há também uma cena interessante, quando a nave de Heywood está há caminho da Lua, alguns tripulantes assistem a imagens de lutas de sumô em telas widescreen, como referência a disputa da chegada na mesma. Além da clássica referência do supercomputador HAL, suas três letras precedem as letras de IBM, que é uma das maiores empresas de informática dos EUA.
É interessante notar como a fotografia dialoga com a montagem, como nas composições utilizadas nas cenas do espaço, a maioria dos objetos tem aspectos circulares e giram. Na cena que Heywood chega na estação, o elevador é circular, o movimento que a câmera faz é num “travelling” circular e a terra ao fundo nas janelas (tudo gira). O uso das cores também é marcante, o azul e o vermelho, são as mais representativas. O vermelho sempre está associado ao perigo ou ao retorno ao passado, como às imagens avermelhadas do início do filme, nas paisagens desérticas ou ao “olho” de HAL, que se volta contra os seres humanos. O azul está relacionando com o futuro e esperança, como na vista da terra do espaço ou na “Criança estrela” do final do filme além de alguns botões de dentro da nave. Os “flares” e os reflexos são muito bem utilizados, o primeiro é marcante nas cenas em que aparecem o monólito, dando um tom mágico. E o segundo, na parte frontal do capacete de David, sob seu rosto. Principalmente quando reflete HAL, denotando um significado de unicidade entre os dois, existe algo de David em HAL e vice-versa .
A fotografia nos remete aos efeitos especiais, concebidos e dirigidos por Kubrick. O fotógrafo que existia antes de se tornar diretor de cinema aflorou nesse filme, que abusou das perspectivas para criar profundidade, iluminação impecável e angulações indescritíveis. Os efeitos especiais foi o item que o fez ganhar o único Oscar dessa obra. O uso de cenários gigantescos e em tamanhos reais ou com possibilidades de movimentos antes nunca executados geraram imagens surpreendentes. As experimentações visuais, como a viagem através do “Portal estelar” ou as imagens de Júpiter, com cores vibrantes, são marcas indeléveis nesse filme. Considerando que na época não existiam computadores para criar elementos virtuais, o filme demonstra profundo engajamento em técnicas de superposição e de trabalho com miniaturas e maquetes.
O filme tem uma característica peculiar, seus protagonistas somente aparecem depois dos primeiros cinqüenta minutos de filme, logo após a segunda aparição do monólito na Lua, quando esse envia um sinal para Júpiter. Há sempre uma questão de aparição x evolução, o monólito está na lua sinalizando um acontecimento do conhecimento, intelectual, é como se representasse nossa evolução. Cada vez querendo ir mais longe.
David Bowman(Keir Dulela) e HAL (voz de Douglas Rain ) são os personagens principais. As suas características são quase invertidas propositadamente. Bowman é tranqüilo, seguro e prático, já HAL, que é a máquina, é curioso, orgulhoso, mentiroso e ambicioso. Ele que foi criado pelo homem, incorpora seus defeitos e volta-se contra o próprio homem, como o macaco no início do filme que não admitiu ter somente a comida, e foi de encontro aos seus semelhantes, matando-os para tomar-lhes água e espaço.
Bowman e HAL surgem na Viagem a Júpiter, a bordo da nave Discovery, que possui uma semelhança a um espermatozóide, semelhança que nos remete a imagem final do filme, a gestação da “Criança estrela”. A aparição dessa nave e dos tripulantes representam um segundo momento do filme, nota-se isso pois até a trilha sonora é distinta. A valsa de J. Strauss dá lugar ao “Ballet” de Khatchaturian. Passa-se a ouvir ruídos constantes de ventoinhas, como se fosse o coração de HAL, além da respiração de Bowman e o silêncio, usado depois da morte do colega de Bowman e depois do assassinato dos outros tripulantes que estavam hibernando. Depois das mortes as imagens do espaço, fora da Discovery são sempre em silêncio, representado um luto às ações de HAL.
HAL é tudo aquilo que Bowman não quer mais ser, e pode matá-lo a qualquer momento. Assim o primeiro é eliminado, numa das cenas mais marcantes do filme, enquanto suas placas do centro lógico de memória são retiradas, ele diz “minha consciência está se esvaindo”, “eu posso sentir”, e começa a cantar uma música que seu construtor o havia ensinado, que possui frases do tipo, “estou me sentido meio louco…” ressaltando ainda mais a humanização de HAL. Após isso Bowman é “premiado” com o máximo da evolução, transforma-se em estrela. Isso é uma referência ao conto “Sentinela” de Arhur C. Clarke, que a obra é baseada. No conto, Clarke diz que a quantidade de estrelas no céu é equivalente à quantidade de seres humanos que nasceram e morreram, então é possível que exista uma estrela para cada ser que existiu. Assim, várias pessoas podem ter se tornado estrelas em seu processo evolutivo, e isso será demonstrado em algum momento em sua vida, no filme foi o momento de Bowman.

Kubrick
Caché
Agosto 18, 2006
No Cinema
Michael Haneke, Caché. França/Áustria/Alemanha/Itália, 2005
Imagens e palavras
Ao sair da sessão de Caché eu afirmava, “esse filme aponta para um Cinema do futuro”, algumas pessoas me olharam como se não entendessem o que eu havia acabado de dizer ou não acreditassem na afirmação, já que muitas saiam da sala com rostos desgostosos. Com certeza não é um filme que agradará o público em geral, há uma exigência emocional e intelectual que está longe da passividade provocada pelo domínio do cinema narrativo clássico, além da proposta criada pelo diretor onde o espectador precisa completar as lacunas deixadas abertas no filme. Assim, aqui vai minha análise.
Caché é um filme sobre palavras, sobre palavras que não são ditas. E sua maior capacidade está em usar a imagem da melhor maneira possível para mostrar isso. Stanley Kubrick afirmava que todos os filmes já haviam sido feitos, que a função do cineasta seria tentar buscar algo novo, ou pelo menos fazer diferente. Haneke parece ter ido fundo nessa proposta, e faz um filme onde imagens tem grande plasticidade e caráter de subconsciente, e palavras que dizem mais do que elas significam. O diretor está experimentando e jogando com o Cinema, o maior exemplo disso é a capacidade de nos manipular através da cena que está sendo mostrada e o diálogo que acontece junto com a imagem.
Ao iniciar o filme já temos um diferencial, há um longuíssimo plano fixo da fachada de uma casa e os créditos vão aparecendo sobrepostos nessa imagem, sendo que um após o outro como que enchendo a página de um livro. Após todos os créditos impressos eles se apagam e a imagem permanece, e permanece… Durando mais que o “necessário”, e só depois de um período percebemos que é uma gravação dentro do filme . Há a extrapolação do caráter descritivo da imagem, e o fato de durar mais, gera um novo conceito. Imagens que nos acompanham, remetendo a lembranças.
A história do filme é a seguinte, um casal passa a ser atormentado com fitas possuindo imagens de sua casa deixadas na porta, embrulhada em desenhos estranhos. Cada vez essas imagens vão se tornando mais intimas. Georges Laurent é um apresentador de programa de TV e sua mulher Anne Laurent uma escritora, moram com seu filho adolescente Pierrot.
Ao utilizar do fato de imagens gravadas em video-tape fazerem parte da história, o diretor pôde explora-las ao seu prazer, inserindo quando quisesse na narrativa sem nos comunicar que ali tratava-se de uma cena gravada pelo observador misterioso, somente nos explicando depois de um período através dos diálogos. E pra reforçar isso, ele utiliza da plasticidade própria da imagem pra se auto denunciar, quando mostra o programa de TV que Georges trabalha ou telejornais preenchendo toda a tela mas com qualidade técnica inferior. Dessa forma o espectador é arrebatado pelo filme, como que puxado pelo diretor a embarcar em sua viagem, muitas vezes sendo pego de surpresas.
Após esse arroubo técnico-criativo o filme passa a demonstrar que seu tema é muito mais amplo do que parecia, e o thriller que a sinopse indicava dá lugar para um forte caráter psicológico. O foco que ficaria na descoberta do observador que envia as fitas passa para a dissecação das personalidades dos personagens vigiados, já que cada vez mais penetramos no íntimo deles e percebemos como a falta de comunicação pode impedir a felicidade, a paz e até o amor.
No primeiro diálogo do filme indica-se um fato , “como ele estava tão perto e eu não percebia”, Georges conversa com Anne sobre a gravação dele chegando em casa enviada pelo observador. Essa frase serve também para demonstrar o impasse que acontece com o casal devido a dificuldade de se ter uma conversa franca, George tem dificuldade em contar seus problemas, de falar sobre seus medos e angustias. E isso gera uma desconfiança tremenda para Anne, que não o entende, já que sua personalidade é o oposto disso, é mais aberta e prática. Enquanto ele esconde, ela mostra. A chegada das fitas resulta num desencadeamento de incertezas, já que em alguns momentos enquanto Georges mente para Anne a imagem gravada o desmente.
“A dor compartilhada é mais fácil de carregar”
Caché aponta para um cinema do futuro porque traz novidades para o universo cinematográfico. Experimentações a respeito da imagem e seus conceitos, maior interatividade entre o espectador e a obra, além de sutilezas tão distantes hoje em dia do dito “cinemão”. Assim, Haneke constrói seu filme através desses detalhes, metáforas, e nos faz pensar, cobra-nos ajuda para desvendar os mistérios do ser humano. Um exemplo disso é o estúdio do programa de Georges e sua casa, ambos possuem uma sala onde a parede é formada por vários livros enfileirados, isso entra em choque com sua personalidade, ele é um apresentador de TV, gera e vive arrodeado de informação, mas não consegue comunicar claramente seus sentimentos com sua esposa ou seu filho.
A incomunicabilidade surge na conversa familiar e atinge seu ponto máximo na intransigência de Georges com os Argelinos. Majid é o passado que Georges não quer relembrar mas que está sempre presente para ele através de sonhos, o oposto também acontece com Majid, só que através da TV. Existe uma relação muito forte entre os dois sem precisar do encontro físico, que se dá 50 anos depois de uma separação traumática. É pra onde apontam as imagens que duram, a lembrança personificada.
A falta de tempo e palavras são elementos que permeiam todo o filme. A imagem síntese disso é demonstrada quando na discussão familiar sobre o desaparecimento de Pierrot, entre Georges e Anne a TV auncia os acontecimentos na Palestina, onde a intolerância e falta diálogo é conhecida em todo o mundo. Haneke aponta alí que o problema é maior, a família do filme é uma referência pra que se discuta a questão da intolerância em toda a sociedade. O diretor pontua o filme com essas questões, como no exemplo da discussão de Georges com um ciclista negro, ambos estão errados, mas nenhum dos dois cedem. Não é a toa que o choro é outro elemento marcante, os personagens dificilmente sorriem, há uma grande carga de ressentimento e mágoas. Esperam estar sozinhos pra colocarem esses sentimentos pra fora. A solidão reina em alguns momentos.
Há também o uso de artimanhas para nos confundir, como algumas inserções rápidas da imagem de Georges quando criança em momentos distintos do filme – a imagem e sua pseudo imagem – resultado do subconsciente de George aflorando, mesmo sem sabermos que trata-se dele, só depois o diretor nos explica quando mostra a infância de George através de seus sonhos. Ou então os desenhos enviados com as fitas pelo observador misterioso, ligações diretas com o que aconteceu ou acontecerá com alguns personagens mas que não tem clara explicação na diegese, funcionando mais como referencia imagética para o espectador do que como prova criminalista.
Mesmo nos momentos em que o filme discute a infância, nas conversas entre mães e filhos, tanto a de George com sua mãe ou entre Anne e Pierrot, percebemos que o objetivo é demarcar ainda mais a questão da falta de palavras. George não se abre com sua mãe, a dificuldade de conversar sobre sentimentos é mais velha do que parece. Já Pierrot cobra da mãe informações sobre o refúgio que ela cria no amigo, mas ela não consegue explica-lo e a situação piora. Anne tenta o carinho, o amor surge pela primeira e única vez no filme através de palavras, mas carece de sentimentos, é ouvido mas parece não ser compreendido.
Não só a criança, mas todo ser humano tem a capacidade de fantasiar quando não fala sobre algo. Isso nos remete a imagem final do filme, a saída da escola. Onde acontece sutilmente o encontro entre Pierrot e o filho de Majid, eles conversam no canto esquerdo da tela e o diálogo não é transmitido para nós. Uma indicação de que os problemas devem ser discutidos no início. Quando isso não acontece, eles atrapalham nossa visão, além de bloquear nossas palavras.
Com Daniel Auteil, Juliette Binoche, Maurice Bénichou, Annie Girardot, Lester Make donsky, Danie Durval, Walid Afkir, Nathalie Richard, Bernard Le Coq.
Embriagado de Amor, de Paul Thomas Anderson
Junho 8, 2005

Análise: EMBRIAGADO DE AMOR
Paul Thomas Anderson. Punch-drunk love. EUA. 2002
Encontro do vermelho com o Azul, rodeado de flashs coloridos
“Eu não gosto de mim às vezes”, essa é uma das frases de Barry Egan, protagonista de Embriagado de Amor (Punch-drunk love), de Paul Thomas Anderson. Definido como uma “comédia romântica”, o filme é muito mais que isso, já que traz experimentações estéticas e psicológicas que extrapolam facilmente os limites desse tipo de classificação. A não rotulação seria uma das melhores opções para essa obra, um misto de várias nuanças, humor, drama, suspense e mistério.
O início do filme é uma apresentação do protagonista, em seu mundo, isolado e distante dos outros. Na primeira cena, vemos Barry sentado na mesa de seu escritório, um galpão, de onde tenta dirigir seu negócio, uma loja de desentupidores de pia. Ao mesmo tempo que tenta ganhar milhas aéreas de uma promoção em potes de pudim. A fotografia é marcante e de composição admirável, a parede, em duas cores, emoldura o personagem e o uso da perspectiva através das linhas que dividem as cores reforça nossa atenção, além de criar profundidade. O plano utilizado nessa cena é muito mais aberto do que o necessário, mostrando espaços vazios, denotando a idéia de isolamento em que Barry se encontra.
Durante um período do filme, somente vemos Barry e coisas que ele observa. Ele chega mais cedo que os demais em sua loja, mas não para organizá-la, e sim para descobrir um modo de poder sair daquele lugar, como se ele nunca estivesse satisfeito com o que faz e quisesse ir pra bem longe. Na verdade ele não está satisfeito consigo mesmo, como afirma na frase citada no primeiro parágrafo. A calmaria do amanhecer é mostrada no filme, Barry aparece em planos abertos, demonstrando claramente o sentido de solidão. Também observamos como essa calma e solidão podem ser transformadas em tensão e ansiedade, acompanhando acontecimentos através de seu ponto de vista: um grave acidente de automóvel, com o carro capotando várias vezes, logo após um carro de entrega freando bruscamente e deixando um pequeno piano sobre a calçada sem nenhum endereçamento. É o mundo de Barry Egan, onde as coisas não tem muitas razões para acontecer, simplesmente acontecem.
Uma ação se repete no filme, a saída de Barry do seu escritório para olhar a rua. Os planos são rodados da mesma maneira, só que com outra iluminação, nos passando a idéia de um sonho, como se a primeira ação não tivesse existido. Mas na verdade é a demonstração da rotina em que Barry se encontra, que logo após é quebrada com a chegada de uma estranha mulher, posteriormente identificada como Lena Leonard(Emily Watson), que será seu “par romântico”. Dessa vez, diferente da primeira cena, a luz vaza pela lente da camera propositadamente, marcando a tela com um facho colorido(flare), que irá se repetir várias vezes durante o filme, a camera a segue como havia seguido Barry até a saída da loja, vemos estilhaços de vidro no asfalto da rua e o piano na calçada, reforçando a posteridade dos acontecimentos.
O filme é bastante azulado, sendo que o vermelho é inserido algumas vezes. É como a vida que o personagem leva, triste e solitária(Azul) que é cortada por uma paixão arrebatadora (vermelho). Quando o protagonista passa por fatos que te tocam, a luz vaza na lente da camera manchando a imagem. Isso é bem demarcado no filme, principalmente nos momentos que Barry está com Lena.
A montagem do filme mostra momentos calmos justapostos com momentos de ação exacerbada, transferindo o nervosismo do protagonista para os espectadores, como na cena em que ele está olhando o piano calmamente na calçada e passa um caminhão em alta velocidade bastante próximo, o som do caminhão somente é inserido quando ele já está na tela, e não desde a sua aproximação, é como se o protagonista estivesse num transe e não observasse cuidadosamente as coisas ao seu redor, e nós entrássemos e saíssemos juntos com ele nessa “viagem”.
A trilha sonora é inserida cuidadosamente quando Barry está mexendo no piano e começa a tocá-lo, a partir daí acompanhará o protagonista até o final do filme, principalmente quando passa por momentos de stress e nervosismo. Ela tem uma função de nos inserir na diegese, já que em alguns momentos incomoda, nos deixando também nervosos e inquietos.
Um fato bastante interessante, é que num dado momento do filme, que parecia reservado para os créditos iniciais, aparecem imagens coloridas, como pinturas e fachos de luz. Imagens abstratas e brilhantes, acompanhadas de uma trilha sonora fantasiosa, como se nos dissesse que uma fábula está para começar.
Barry é uma pessoa com características estranhas, com tiques e tremedeiras, sua ansiedade nos passa a impressão que está sendo perseguido, sempre se assustando com facilidade. Seu figurino também realça isso, já que ele aparece quase sempre com um paletó(Azul), para estranhamento dos outros personagens, já que no seu trabalho não necessitaria desse tipo de roupa. Ele nos passa uma sensação de sempre estar pronto para algo, mesmo quando não precisa(inseguro, indeciso). Veremos depois que essas características são o resultado de sua criação, dominado por sete irmãs que o zombam desde a infância, ele é um ser atormentado, que não consegue se expressar adequadamente e que perde o controle com facilidade.
Devido a uma dificuldade em se relacionar com outras pessoas, Barry faz uma ligação para um “disque-sexo” e conversa durante um longo período com uma atendente. Esta cena é muito bem filmada em vários planos seqüências, de maneira que acompanhamos sem cortes todo o processo da conversa. Além de um belo trabalho de interpretação de Adam Sandler, que nos passa a impressão de aguardar um verdadeiro encontro no lugar de um encontro virtual, se preparando para a conversa, fechando as persianas, caminhando nervoso de um lado para outro. A movimentação de camera reforça isso, já que várias vezes vemos Barry(Sandler) enquadrado e logo depois esse enquadramento é “corrigido”, mostrando ele sentado com o telefone em uma cadeira e outra cadeira vazia do lado oposto da mesa, trazendo assim o que está fora(talk-girl) para dentro da tela. As irmãs sempre tentam fazer com que alguém se aproxime dele, e é dessa forma que Barry começa a se envolver com Lena, colega de trabalho de Rhonda, uma de suas irmãs. Emily Watson, que está muito bem no papel, sempre com vestidos vermelhos ou em cores quentes, falando pouco e com uma voz suave, demonstrando a timidez e a calma de sua personagem. Assim Lena se transforma numa luz no fim do túnel para Barry, uma esperança onde não havia nada. Quando Barry vai ao seu encontro no Hawaí, surgem elementos que frisam isso, como as roupas vermelhas das atendentes no aeroporto em contraste com as cores azuladas do resto da cena, a lâmpada bastante forte no fim do entroncamento entre o aeroporto e o avião e ele caminhando em slow ao em sua direção, e a luz que se acende na cabine de telefone público quando ele consegue falar com ela, todas essas cenas acompanhadas do refrão “Pela primeira vez na vida/ Eu finalmente senti/ Que alguém precisava de mim” da música “He Needs Me”, referência ao filme “Popeye” de Robert Altman e se encaixando perfeitamente no contexto, já que passa a idéia de um amor inocente, puro. É como se tudo se tornasse mágico quando ele estivesse ao lado dela.
Se observamos com cuidado nota-se que até a cor gravata de Barry é usada para indicar suas emoções durante o filme, o que pode passar despercebido ou parecer um erro de continuidade se olhado sem a devida atenção. As cores variam entre o vermelho( no início, antes de conhecer Lena, mas já indicando para uma paixão que irá surgir), amarelo(quando está no avião, indicando seu nervosismo, atenção) e branco (Quando encontra Lena no Hawaí, também de Branco).
No momento de encontro entre Barry e Lena há uma ação que aparece duas vezes, é a chegada de Lena. Ela aparece para nós, espectadores, e logo após, aparece novamente, mais de perto, para Barry, reforçando sua chegada. Há uma quebra do clichê de encontros românticos onde os personagens estão isolados, num lugar deserto. Quando eles se encontram, aparecem várias pessoas caminhando de um lado para o outro, entre eles. Existe a beleza da cena (somente observamos as silhuetas das pessoas) mas algo é diferente das cenas usuais de encontros românticos (eles não estão sozinhos).
O filme é construído a partir de detalhes e como esses detalhes são filmados. É uma obra cinematográfica sobre solitários e apaixonados vistos de muito perto, demonstrando as loucuras de cada um. É um filme do encontro do vermelho com o Azul, rodeado de flashs coloridos.
Trecho de diálogo do filme:
Barry
“Estou olhando seu rosto e tenho vontade de amassá-lo.
Quero amassá-lo com um martelo e esmagá-lo,
você é tão linda”
Lena
“Seu rosto é tão lindo…
Quero mastigá-lo, arrancar seus olhos e…
Quero comê-los, mastigá-los e chupá-los”
