Vera Drake
Janeiro 21, 2006
DVD

O SEGREDO DE VERA DRAKE
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Mike Leigh, Vera Drake, Inglaterra, França, Nova Zelândia, 2004.“Vera Drake é uma mulher pequena e de mãos pequenas” como afirma uma senhora para o detetive quando perguntada a respeito da pessoa que realizou o aborto forçado que levou sua filha a cama de um hospital. Essa é uma das cenas marcantes do Segredo de Vera Drake, escrito e dirigido por Mike Leigh.
O filme é ambientado nos anos 50 e Vera(Imelda Staunton) é apresentada de forma que penetramos em seu cotidiano. Onde trabalha como diarista em casa de grã-finos, cuida da mãe já idosa, de um vizinho doente e é a alegria da família. Uma senhora otimista, sempre procurando ajudar as pessoas. Sinônimo de bondade, carinho e devoção, que só é quebrado por causa de um fato, ela ajuda mulheres a realizarem abortos.
Ao terminar a sessão me perguntei o porque de um diretor focar os olhos para uma questão como essa, e pude perceber que a resposta está bem clara no próprio filme, passaram-se mais da metade do século e a situação continua quase da mesma forma em muitos países, entre eles o Brasil (Na Inglaterra, o aborto já foi legalizado). Na verdade é uma indignação que essa realidade causa no cineasta e ele nos passa através do cinema. Assim, até hoje mulheres ainda morrem por causa de aborto forçados, realizados em ambientes precários ou com objetos não esterilizados. É um fato delicado que ainda mexe com toda a sociedade, talvez por isso o diretor evitou entrar em discussões morais e religiosas.
O segredo de Vera é desvendado após 40 minutos de filme durante uma reunião de família, todos estão sentados à mesa, comemorando o noivado da filha e a primeira gravidez da mulher do irmão do marido de Vera quando os policias chegam para interrogá-la. Mike Leigh nos coloca novamente no centro de uma família, mais precisamente na mesa da casa, como fez em Segredos e Mentiras(Secrets & Lies, 1996), onde tratava de dois temas também delicados: A questão do abandono de crianças e o racismo. Ele nos envolve novamente de maneira sutil nesses dramas familiares quando nos leva para o interior da casa da família Drake, sendo que sempre procura falar de uma família como metáfora de toda uma sociedade.
A descoberta do segredo desmorona o lar de Vera. Sua família era exemplo de paz e harmonia, mesmo se tratando de pessoas humildes não possuía problemas, talvez o único seria arranjar um marido para sua filha estranha. A cena em que Vera sai de casa presa é justamente quando começa a nevar no filme, metáfora da frieza com que ela é tratada pelos seus atos.
Vera não sente culpa em realizar os abortos, ela mesma afirma “eu ajudo as meninas”, quando interrogada se alguma vez já o fizera em si próprio o silencio domina a sala do cinema, somente restando uma resposta, sim. Assim faz sua função acreditando estar fazendo “algo de bom” para elas. A situação só é mudada quando ela tem a informação pelos policiais de que algumas mulheres sofreram graves conseqüências devido a sua “ajuda”, tanto que ela mesma afirma ser culpada pelos atos quando questionada pelo Júri após a prisão. Vera nunca fala a palavra “aborto” durante todo o filme, até no momento que precisa contar ao marido o motivo de sua “visita a delegacia”, numa belíssima cena, onde a câmera se aproxima dos dois e ela sussurra em seu ouvido, de forma que somente o personagem ouve, os espectadores não sabem o que ela realmente falou. O diretor procurou se cercar por todos os lados sobre a “boa fé” de Vera, mas isso termina enclausurando sua própria personagem, transformando-a quase numa santa, até os policiais que a prendem ela trata como “queridos”. Uma tentativa de manipular-nos, para que não consigamos sentir raiva da personagem, somente pena.
Segredos e Mentiras e O segredo de Vera Drake se completam, e mesmo pela diferença de tempo entre eles, existe um diálogo. Os abortos do segundo e a mulher de sucesso do primeiro, que vai em busca dos pais verdadeiros, mesmo esses tendo a abandonado. Mike Leigh usa o tempo na diegese diferente do tempo cronológico, talvez para dizer-nos: problemas continuam existindo mas a vida está prevalecendo, já que a história de Vera Drake se passa aproximadamente 50 anos antes da de Segredos e Mentiras.
O filme é muito bem realizado, tanto tecnicamente quanto dramaticamente, sendo assim não admira que tenha ganhado tantos prêmios: O Leão de Ouro e o Volpi Cup de Melhor Atriz (Imelda Staunton), no Festival de Veneza; 3 prêmios no BAFTA, nas categorias de Melhor Diretor, Melhor Atriz (Imelda Staunton) e Melhor Figurino; O European Film Awards de Melhor Atriz (Imelda Staunton), além das 3 indicações ao Oscar®, nas seguintes categorias: Melhor Diretor, Melhor Atriz (Imelda Staunton) e Melhor Roteiro Original. As premiações de Imelda Staunton para melhor atriz são completamente plausíveis, ela está perfeita como a senhora Drake, sua interpretação é singular, sua personagem é composta de expressões quase imperceptíveis, de mudanças mínimas na tonalidade de voz, de olhares. No momento em que os detetives entram em sua casa e a procuram, ela nos passa uma sensação de angustia quando a câmera pára com Vera na frente e os demais familiares atrás, esse plano permanece um período mais longo do que o usual, demonstrando sua face perplexa pela visita inusitada, como se pudéssemos ler sua mente, tentando prever o que iria acontecer. Os outros atores também contribuem bastante para a credibilidade da história, isso pode ser demonstrado pelas indicações ao BAFTA de Melhor Ator Coadjuvante (Philip Davis) e Melhor Atriz Coadjuvante (Heather Craney), respectivamente Stan, o marido de Vera e Joyce, mulher do irmão de Stan. Segundo o site IMDb de todos os atores somente a Imelda Staunton, realmente sabia qual era o segredo até aquele ponto, trazendo veracidade e assombro nas interpretações quando eram informados a respeito do “crime” de Vera.
Nota-se o esmero na cenografia, demonstrando um cuidado especial da direção de arte, conduzida por Ed Walsh que em parceria com Jacqueline Durran, criadora dos figurinos, nos transporta para a década de 50 de forma automática. Além da bela fotografia, dirigida por Dick Pope, que remete a uma série de significados, como as sombras negras ou elementos escuros que aparecem junto com o rosto delicado de Vera, demonstrando que mesmo com toda sua bondade existe um lado obscuro em sua vida, há também uma tonalidade sépia e tons pasteis que remetem ao passado. As composições das imagens são admiráveis, principalmente quando estamos na casa de Vera, onde alguns enquadramentos permitem ver toda a família reunida sem precisar de cortes, somente através do uso da perspectiva.
Há um fato que o diretor resolve frisar, o “aborto limpo” feito pela filha de uma das patroas de Vera, uma garota de classe alta, virgem, que depois de ser violentada engravida e decide não ter esse filho. A pequena história de sexo forçado é colocada praticamente em paralelo no filme. É justamente a alfinetada do diretor para os hipócritas de plantão, demonstrando que o aborto não é somente feito pelas mulheres pobres e em más condições financeiras, mas também pelas ricas recorrendo a clínicas especializadas, com direito a psiquiatra.
César, adoro quando você escreve,
eu não gostei de “Vera Drake”. Acho que o tom emocional tem propósitos maniqueístas, de coopção do espectador pelo apelo do melodrama. Me incomodou particularmente a “virada” da personagem que, antes era segura, forte, direta, e, justamente quando a personagem precisa do apoio do espectador, mal consegue falar, anda com dificuldade, precisa de apoio para se levantar da cadeira.