Quase…

Janeiro 19, 2006

DVD
QUASE DOIS IRMÃOS
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Lucia Murat, Brasil, 2004
“Quase dois irmãos” parte de um argumento promissor, a união no mesmo pavilhão de presos políticos e criminosos comuns na cadeia de Ilha Grande(Rio de Janeiro) no início da década de 70, e a troca de conhecimento entre eles. A partir desse ponto de partida, a diretora Lucia Murat cria uma história ficcional onde dois personagens vão conviver em três períodos históricos diferentes, quando se conhecem na infância (fim dos anos 50), presos no mesmo pavilhão (início dos 70) e a atualidade. O resultado dessa união termina entre o morro e o planalto, enquanto Miguel, que faz parte dos presos políticos, torna-se Senador, Jorginho, preso comum, se transforma em chefe do Comando Vermelho.

Jorginho e Miguel são na verdade representações de classes distintas (o negro pobre e o branco de classe média) de um tema caro à população brasileira que é a época da ditadura militar. Dessa forma existe um forte caráter sociológico por trás da história, e que acaba conduzido de maneira que engessa e caricatura os personagens. Isso pode ser claramente explicitado através de alguns personagens no filme, como a filha rebelde do senador que se envolve com o bandidão do morro, do menino pobre que se apaixona pelo samba ou do próprio senador tentando aprovar um projeto de “centro cultural para a comunidade”. Tendo um plano de fundo tão denso como a ditadura, às vezes fica complicado para a diretora tratar com fluidez a história que está sendo contada sem cair em pontos que só servem para fincar o filme numa época, como o uso constante de closes e planos fechados, indicando mais uma restrição do cenário do que uma aproximação dos espectadores com os personagens.

A narrativa entrecortada utilizada para contar essa história, mostrando as três épocas citadas acima de forma mútua, não é amarrada precisamente, nos deixando perdidos sobre os acontecimentos. Algumas cenas não contribuem em nada para o desenvolvimento da história, como a violência gratuita no morro ou a cena no presídio em que Miguel e Jorginho seguem um gato de um colega do pavilhão e o matam somente para mostrar que não tem tempo para se preocupar com “pequenos detalhes” enquanto acontece a “revolução”, cena mais masoquista do que necessária para descrever uma possível frieza dos presidiários( Ela quis compará-los aos militares?). Dessa forma pesa para a fotografia do filme assumir um papel de ajudante para distinguir e significar as cenas em diferentes épocas, mesmo essa sendo bem utilizada (tom sépia representando a infância, os frios dias de ditadura através de tons azulados e a atualidade sem tons dominantes).

Essa questão das três épocas distintas na história é uma marca forte da não coesão do filme, como são três atores representando um mesmo personagem, em alguns momentos isso fica gritante já que a participação de Werner Shünemann, que atua como o Miguel “senador” está muito abaixo da interpretação de Caco Ciocler por exemplo, que faz o Miguel “preso político”. Observa-se uma imersão desse último no papel com mais profundidade, a rebeldia e a política bem dosada, percebe-se que ele até emagrece no período da prisão. Devido a atuações medianas, principalmente a de Maria Flor, que representa a Juliana, a filha do senador (em alguns momentos é como se ela estivesse lendo o roteiro, principalmente nas conversas com o pai), assim quem se destaca facilmente no filme é o ator Flávio Bauraqui que interpreta o Jorginho na prisão, demonstrando com maestria a malandragem e ingenuidade do personagem, criando um desnível claro entre ele e os outros atores no filme. As cenas de violência nas favelas, como já citei acima, soam gratuitas e depois de “Cidade de Deus” tornam-se clichês para mostrar o tráfico e a matança nos morros. A infância dos protagonistas é mostrada numa pequena parte do filme e há um ítem interessante a ser citado, o uso do cenário de maneira peculiar de forma que somente podemos ver alguns objetos, como se na volta ao passado dos personagens somente se materializasse o que era mais importante para eles, o que era lembrado.

Nota-se claramente que o filme tem um ponto que a diretora tem mais vontade de tratar, que é a história intermediária, no pavilhão da cadeia de ilha Grande na época da ditadura militar. Lucia Murat viveu nessa época, foi presa e torturada, como afirma em suas entrevistas sobre o filme, então esse tema central é bastante próximo a ela. É o ponto mais significativo da obra, e onde encontramos mais consistência, mas que é abafado pelos outros momentos, que parecem estar no filme somente para indicar que Miguel e Jorginho continuam se encontrando no decorrer da vida. Há um fato relevante nessa parte do filme que é o aprendizado e a assimilação de algumas regras dos presos políticos por Jorginho, ele utiliza o que aprende mesclado com violência e agressões, já que é pela força e não pelo diálogo que as coisas funciona do lado dele, do negro pobre e sem estudo. No lado oposto está Miguel, e sua decepção por não conseguir estabelecer a ordem nem mesmo dentro de um pavilhão, metáfora da situação do país hoje, onde as desigualdades ainda crescem vertiginosamente. Ainda há uma ironia inserida ao momento atual do filme, já que Jorginho aplica o que aprendeu no presídio na sua “coordenação” no morro, quando está à frente do Comando Vermelho, sempre seguindo o princípio de “igualdade, paz e justiça”, como ele faz toda vez que manda eliminar alguém.

Há uma coisa que chama atenção no filme e que talvez seja o que de melhor foi realizado em toda obra: a música. Criada com maestria por Naná Vasconcelos contém ruídos e sons que ajudam a criar climas claustrofóbicos e ambientar os telespectadores. Mesmo com todos os problemas já citados ela consegue permeá-los e deixar sua marca forte.

Uma resposta para “Quase…”

  1. qwdpuwmvhz disse

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