Globalização: Good Bye Lênin!
Janeiro 18, 2006
DVD
Adeus, Lênin!(Good Bye Lênin! – 2003) é um filme que utiliza o drama de seus personagens como forma de analisar questões políticas e sociais de seu país de origem, a Alemanha. A história gira em torno de um filho que, diante da doença da mãe, se mostra capaz de tudo para criar um ambiente que minimize o sofrimento dela, mesmo que isto envolva mentiras e subornos. Ao que parece, a estratégia é utilizar dramas intimistas como ponto de partida para comentários sobre a sociedade e suas mudanças.
O filme tem início em 1989, quando a Sra. Christiane Kerner, forte defensora do regime comunista da República Democrática Alemã, devido a um ataque cardíaco fica oito meses em coma, deixando de presenciar a queda do muro de Berlim e a unificação da Alemanha. Depois que ela desperta, seu filho Alex, temendo que a nova realidade possa levá-la a outro enfarto, tenta recriar a Alemanha Oriental no quarto da mãe, impedindo que ela descubra o que ocorreu. Chega a produzir falsos noticiários de televisão e a substituir as embalagens dos produtos que compra por outras que deixaram de existir nos últimos meses. Cada vez mais obcecado pelas mentiras, Alex começa a ficar desesperado quando a Senhora Kerner, já mais recuperada, decide sair do quarto. A fábula, com pano de fundo real procura demonstrar para o público a velocidade das mudanças ocorridas na Alemanha Oriental depois de sua reunificação com a Ocidental, que resultou na dissolução da filosofia comunista e na propagação do capitalismo entre os habitantes(algo representado pelo gigantesco banner da Coca-Cola que cobre um edifício vizinho ao prédio de Alex). É uma demonstração clara de como a abertura de um país para as influências da globalização faz com que as fronteiras passem a funcionar somente como delimitadores de território, já que a referencia de poder deixa de estar num ponto definido e passa a estar relacionada a empresas transnacionais, que irão ditar as regras, e essas serão indiscutíveis. As certezas locais acabam perdendo a exclusividade, tornando-se menos mesquinhas e o que era antes distante passa a estar próximo devido à convivência global ser menos incompreensível. Isso é demonstrado fortemente quando Alex precisa criar noticiários locais falsos para encobrir as informações que chegavam através de uma grande rede televisiva, como a CNN.
A princípio, Alex é um rapaz imaturo que não se importa muito com a realidade de seu país. Quando participa de uma passeata, por exemplo, ele pode ser visto comendo uma maçã despreocupadamente ao mesmo tempo em que paquera as garotas ao seu lado. Para Alex, a passeata não é um evento político, mas social (no seu sentido de lazer, bem entendido). Porém, aos poucos ele vai sendo forçado a reconhecer a relevância das mudanças vividas pelas Alemanhas, tornando-se um homem mais maduro e, de certa forma, engajado. Isso representa uma certa crítica em relação à perda de identidade com a unificação e abertura do país, quando não se tem noção do que representa ou significa, não se sabe o que defender. Tanto é que a mãe de Alex já é o oposto, ela representa o passado, que também é criticado, pois é, de certo modo unilateral, radical, cego. Não conseguindo ver o lado positivo nas mudanças, a junção dos dois nos remete para uma avaliação das dificuldades de todos os alemães para visualizar o Global durante a reunificação, a importância da Copa do Mundo de 90 na consolidação do processo é uma demonstração clara disso.
Há algo de fascinante na viagem no tempo proposta pelo filme, que é eficiente ao (re)apresentar para o espectador a realidade da Alemanha Oriental e ao (re)submetê-la ao processo de unificação. É o que nos faz refletir e poder fazer uma certa avaliação a respeito das mudanças, e pensar como a Globalização influencia no desenvolvimento do país depois que este se submete a ela. Existe uma tomada no filme que representa toda essa explanação e algo mais, tornando-a de certo modo bastante poética: aquela em que vemos a imensa estátua de Lênin sendo carregada por um helicóptero. É o verdadeiro “Adeus” a Lênin, uma imagem que certamente é lembrada por todos que assistiram, condensando todo o significado da produção.
“Adeus Lênin!” – “Good bye, Lenin!” 121 mins.
Alemanha, 2003.
Dir.: Wolfgang Becker.
Atores: Daniel Brühl, Katrin Sa, Maria Simon, Chulpan Khamatova, Florian Lukas.
Distribuidora: Columbia/Tri Star
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